Risco definido vs. indefinido
Toda venda de opção é a emissão de uma apólice. A pergunta que separa as estruturas em dois grupos é simples: existe uma opção comprada que limita a sua perda? Se existe, o risco é definido. Se não existe, é indefinido. Entender o que cada lado oferece — e o que cobra — é o que permite escolher a estrutura pelo tamanho da conta e pelo contexto, não pelo crédito mais alto da tela.
Como reconhecer cada tipo
Em risco definido, toda opção vendida está casada com uma opção comprada do mesmo tipo (call com call, put com put), no mesmo vencimento, que funciona como resseguro: a partir do strike dela, o que você perde de um lado ela devolve do outro. Travas de crédito, iron condor e borboletas entram aqui. A perda máxima pode ser calculada antes da entrada.
Em risco indefinido, pelo menos uma opção vendida fica sem cobertura. Put vendida a descoberto, call vendida a descoberto, strangle e straddle vendidos são os exemplos clássicos.
Há uma nuance que vale guardar: na put vendida, a perda é grande mas tem limite matemático, porque a ação não cai abaixo de zero. Na call vendida a descoberto, a perda não tem limite, porque não há teto para a alta. Na prática, as duas são tratadas como indefinidas, porque o pior caso é grande demais para caber num plano de sizing comum.
- Definido: bull put spread, bear call spread, iron condor, iron butterfly, borboletas.
- Indefinido: put ou call vendida a descoberto, short strangle, short straddle.
- Casos à parte: a call coberta tem o risco da própria ação; a put com caixa reservado tem perda limitada ao strike menos o crédito, mas esse limite é alto.
O que você ganha abrindo mão do teto
Sem a perna comprada, você fica com o prêmio inteiro. O crédito é maior, o ponto de equilíbrio fica mais longe do preço atual e há mais espaço para administrar a posição — por exemplo, rolando o lado não testado para recolher mais crédito.
Também há menos custo de execução: menos pernas significam menos spread entre compra e venda e menos corretagem. Em ativos de liquidez mediana, isso faz diferença.
O preço disso é o risco de cauda. Um salto de preço — notícia durante a noite, resultado trimestral, evento macro — pode levar a perda muito além do que o stop previa, porque o mercado abre direto num preço distante e não passa pelo seu nível de saída.
O que você ganha com o teto
A perna comprada custa dinheiro, então o crédito líquido é menor. Em troca, você sabe o pior cenário antes de entrar, o capital bloqueado é fixo e o sizing fica exato. Um gap noturno dói, mas para na asa comprada.
Risco definido também permite operar ativos caros com uma conta menor: a garantia depende da largura da trava, não do preço da ação. Isso abre acesso a mais ativos e, portanto, a mais diversificação.
A limitação é a flexibilidade. Quando o preço atravessa os dois strikes, a posição já está na perda máxima e rolar por crédito fica difícil. Em travas estreitas, a relação entre crédito e risco tende a ser apertada, o que exige escolher bem a largura.
Como a Folha de Mesa trata os dois
As regras de entrada e saída são as mesmas: cerca de 45 DTE, saída aos 21 DTE, alvo de 50% do crédito (25% em straddle) e stop em 2× o crédito. O que muda é o tamanho.
Risco definido: perda máxima de 1% a 3% da conta por operação. Risco indefinido: no máximo 5% da conta em capital bloqueado por operação. Em ambos, a carteira respeita o teto de 50% do buying power alocado quando o VIX passa de 20.
Em risco indefinido, o stop deve ser tratado como inegociável. Numa trava, se você hesitar, a asa ainda limita o estrago; numa venda descoberta, hesitar é o caminho para a perda que não cabia no plano.
Escolhendo pelo contexto, não pelo crédito
Algumas perguntas ajudam a decidir de forma mecânica. Elas não dizem o que operar; dizem qual estrutura cabe na sua conta e na sua situação.
- A conta comporta o capital bloqueado de uma venda descoberta dentro do teto de 5%? Se não, só resta risco definido nesse ativo.
- Há resultado trimestral ou evento relevante antes do vencimento? Um teto de perda pesa mais quando o risco de gap é conhecido.
- Sua corretora autoriza vendas descobertas na sua conta? Nos EUA, isso depende do nível de aprovação; na B3, da garantia depositada e da política da corretora.
- Você vai conseguir acompanhar a posição e executar o stop? Se a resposta for “nem sempre”, o teto da perna comprada faz esse trabalho por você.
Put vendida vs. trava de alta com put em XYZ (valores ilustrativos)
Conclusão: A venda descoberta paga mais no cenário tranquilo e tem ponto de equilíbrio melhor, mas, neste gap, custa quase cinco vezes mais (US$ 1.800 contra US$ 380). Num tombo maior a distância só cresce: com XYZ a US$ 50, A perderia US$ 3.800 e B continuaria em US$ 380. A trava entrega menos crédito em troca de um pior cenário conhecido — e é esse número que entra no sizing.
Na B3, quem vende opção sem cobertura precisa depositar margem, calculada pela câmara da B3 e eventualmente aumentada pela corretora. A call coberta usa as ações depositadas como cobertura. Em geral, travas exigem menos garantia que a venda isolada, mas o cálculo exato depende do modelo de risco da B3 e da política da corretora — confirme antes de operar.
Nos EUA, a corretora precisa aprovar a conta para opções, com análise de experiência e situação financeira (Regra FINRA 2360). As corretoras costumam organizar a aprovação em níveis, e vendas descobertas ficam nos níveis mais altos. A numeração dos níveis varia de corretora para corretora.
- Escolher a venda descoberta só porque o crédito é maior, sem conferir se o capital bloqueado cabe no teto de 5%.
- Achar que a put vendida é “segura” porque a ação não vai a zero: o pior caso é limitado, mas costuma ser várias vezes o crédito.
- Montar travas estreitas demais, em que crédito pequeno e custo de execução comem quase toda a relação entre ganho e risco.
- Confiar que o stop vai ser executado no preço planejado em estruturas descobertas: gaps pulam o nível de saída.
- Risco definido = toda opção vendida tem uma comprada que limita a perda.
- Indefinido paga mais crédito e dá mais espaço para ajustar, mas expõe a cauda.
- Definido entrega menos crédito em troca de perda máxima conhecida e garantia fixa.
- Pela Folha: definido até 3% de perda máxima; indefinido até 5% de capital bloqueado, com stop inegociável.
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Revisado em 04/10/2026
Fontes oficiais consultadas
Conteúdo educacional e matemático. Exemplos com valores hipotéticos; ações citadas são fictícias e índices reais aparecem com níveis ilustrativos. Não constitui recomendação de investimento, consultoria ou gestão de carteira (CVM/SEC). Veja o Aviso de Riscos.
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