As gregas sem mistério
Uma opção muda de preço por três motivos: o ativo se mexeu, o tempo passou ou o mercado mudou a expectativa de oscilação (a volatilidade implícita). As gregas medem cada um desses efeitos separadamente. Elas não preveem nada: descrevem como a posição reage, hoje, a cada força. Quem vende opções precisa ler esse painel antes de qualquer decisão, porque o vendedor está do lado que ganha com o tempo e perde com movimentos bruscos.
Delta: o velocímetro da posição
Delta diz quanto o preço da opção muda quando o ativo anda uma unidade (R$ 1 na B3, US$ 1 nos EUA). Uma call com delta 0,30 tende a ganhar cerca de 0,30 se o ativo subir 1. Uma put com delta −0,30 tende a ganhar cerca de 0,30 se o ativo cair 1. Quem vende inverte o sinal: put vendida tem delta positivo, call vendida tem delta negativo.
As três leituras do delta (sensibilidade, ações equivalentes e probabilidade aproximada) estão na aula Delta como probabilidade; aqui interessa como ele conversa com as outras gregas.
- Call comprada: delta entre 0 e +1.
- Put comprada: delta entre −1 e 0.
- Opção no dinheiro (ATM): delta perto de 0,50 em módulo.
- Posição vendida: mesmo número, sinal trocado.
Gamma: o quanto o delta muda
Delta não é fixo. Se o ativo anda, o delta anda junto. Gamma mede essa mudança: com gamma 0,04, cada R$ 1 de movimento altera o delta em cerca de 0,04. É a diferença entre dirigir numa reta e numa serra cheia de curvas.
Para o vendedor, gamma é negativo. Isso significa que, quando o ativo anda contra a posição, o delta piora cada vez mais rápido — o prejuízo do segundo real é maior que o do primeiro. O gamma é pequeno em vencimentos longos e cresce muito nas opções perto do dinheiro quando o vencimento se aproxima. Essa é a razão mecânica da saída aos 21 dias, assunto de uma aula própria.
Theta: o que o tempo leva por dia
Theta é quanto a opção perde de valor a cada dia que passa, com todo o resto parado. Só a parte extrínseca do prêmio (o “valor de tempo”) derrete; o valor intrínseco não tem prazo de validade.
Para quem comprou, theta é um custo diário, como um aluguel. Para quem vendeu, é a receita que entra por dia — o motivo de a venda de prêmio existir. Mas theta não vem de graça: ele é o pagamento pelo gamma negativo. Quem recebe theta aceita o risco de um movimento brusco; quem paga theta compra proteção contra esse movimento.
Vega: o preço do seguro
Vega mostra quanto a opção muda quando a volatilidade implícita sobe ou cai 1 ponto percentual. É a parte do prêmio que reage ao “clima” do mercado, independentemente de o ativo ter se mexido.
Quem vende tem vega negativo: se a implícita cai, a posição ganha; se sobe, perde, mesmo com o ativo parado. É por isso que a Folha de Mesa só procura vender quando o prêmio está caro em relação ao próprio histórico (IV Rank acima de 30). A premissa é que um seguro vendido caro em relação ao próprio passado tem mais espaço para baratear do que para encarecer — uma premissa, não uma garantia: a implícita pode subir ainda mais depois da venda. Opções mais longas têm vega maior: um vencimento de 90 dias reage mais à implícita que um de 30.
Como as gregas conversam numa posição vendida
Um vendedor típico de put ou de strangle carrega theta positivo, gamma negativo e vega negativo. Em português claro: ganha com o tempo, perde com movimento brusco e perde se o mercado passar a cobrar mais caro pelo seguro. Não existe combinação que dê só a parte boa — theta positivo sempre vem acompanhado de gamma negativo.
As gregas também se somam. O delta da carteira é a soma dos deltas das posições (multiplicados pelo tamanho do contrato); o mesmo vale para theta e vega. Isso permite responder perguntas como “quanto a carteira toda ganha por dia se nada acontecer?” ou “quanto perde se o índice cair 2%?”.
Rho: o efeito dos juros
Rho mede quanto o prêmio muda com 1 ponto de juros. Juros mais altos tendem a encarecer calls e baratear puts, e o efeito cresce com o prazo. Com juros altos no Brasil, ele pesa mais nas séries longas da B3 do que costuma pesar nos EUA. No ciclo de ≈45 dias, continua secundário.
Gregas são uma foto, não um filme
Toda grega é calculada por um modelo de precificação a partir do preço, do strike, do tempo, dos juros e da volatilidade implícita daquele instante. Mudou um desses itens, mudaram as gregas. Por isso elas servem para movimentos pequenos e horizontes curtos; para movimentos grandes, a conta certa é reprecificar a opção.
Plataformas diferentes podem mostrar gregas um pouco diferentes para a mesma série, porque usam convenções diferentes de juros, de dividendos e de contagem de dias. Não é erro: é modelo. O que importa é ler sempre na mesma fonte e olhar a ordem de grandeza.
Ilustrativo: a put vendida de ABCD3 lida pelo painel
Conclusão: O painel mostra o contrato do vendedor por inteiro: R$ 3 por dia de receita de tempo, em troca de perder mais rápido a cada real que o ativo andar contra e de sofrer se o seguro encarecer. São aproximações para movimentos pequenos, não previsões.
Na B3, o lote padrão da opção acompanha o do ativo-objeto — na maioria das ações, 100. Nem toda plataforma mostra gregas de todas as séries; nas séries pouco negociadas, o número calculado sobre um preço velho pode enganar.
Nos EUA, o contrato padrão de opção de ação ou ETF é de 100 ações, e as corretoras costumam mostrar delta, gamma, theta e vega por série e somados por posição. Alguns sistemas exibem as gregas já multiplicadas por 100; confira a convenção da tela.
- Ler delta como certeza: delta 0,16 é uma aproximação de modelo, não uma chance garantida de 84% a favor.
- Olhar só o theta e esquecer que ele é o pagamento por carregar gamma negativo.
- Somar gregas de posições sem multiplicar pelo tamanho do contrato e pela quantidade.
- Usar a grega de ontem para decidir hoje: ela muda a cada tique de preço, de tempo e de volatilidade.
- Delta: exposição ao preço; gamma: o quanto essa exposição acelera.
- Theta: o que o tempo transfere de quem compra para quem vende.
- Vega: sensibilidade ao preço do seguro (volatilidade implícita).
- O vendedor típico tem theta positivo, gamma negativo e vega negativo — sempre juntos.
- Gregas são fotos do modelo; para movimentos grandes, reprecifique.
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Conteúdo educacional e matemático. Exemplos com valores hipotéticos; ações citadas são fictícias e índices reais aparecem com níveis ilustrativos. Não constitui recomendação de investimento, consultoria ou gestão de carteira (CVM/SEC). Veja o Aviso de Riscos.
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