Gregas e mecânica do vendedor · Aula 1 de 9

As gregas sem mistério

IntermediárioBrasilEUAB3 e EUA9 min de leitura

Uma opção muda de preço por três motivos: o ativo se mexeu, o tempo passou ou o mercado mudou a expectativa de oscilação (a volatilidade implícita). As gregas medem cada um desses efeitos separadamente. Elas não preveem nada: descrevem como a posição reage, hoje, a cada força. Quem vende opções precisa ler esse painel antes de qualquer decisão, porque o vendedor está do lado que ganha com o tempo e perde com movimentos bruscos.

Delta: o velocímetro da posição

Delta diz quanto o preço da opção muda quando o ativo anda uma unidade (R$ 1 na B3, US$ 1 nos EUA). Uma call com delta 0,30 tende a ganhar cerca de 0,30 se o ativo subir 1. Uma put com delta −0,30 tende a ganhar cerca de 0,30 se o ativo cair 1. Quem vende inverte o sinal: put vendida tem delta positivo, call vendida tem delta negativo.

As três leituras do delta (sensibilidade, ações equivalentes e probabilidade aproximada) estão na aula Delta como probabilidade; aqui interessa como ele conversa com as outras gregas.

  • Call comprada: delta entre 0 e +1.
  • Put comprada: delta entre −1 e 0.
  • Opção no dinheiro (ATM): delta perto de 0,50 em módulo.
  • Posição vendida: mesmo número, sinal trocado.

Gamma: o quanto o delta muda

Delta não é fixo. Se o ativo anda, o delta anda junto. Gamma mede essa mudança: com gamma 0,04, cada R$ 1 de movimento altera o delta em cerca de 0,04. É a diferença entre dirigir numa reta e numa serra cheia de curvas.

Para o vendedor, gamma é negativo. Isso significa que, quando o ativo anda contra a posição, o delta piora cada vez mais rápido — o prejuízo do segundo real é maior que o do primeiro. O gamma é pequeno em vencimentos longos e cresce muito nas opções perto do dinheiro quando o vencimento se aproxima. Essa é a razão mecânica da saída aos 21 dias, assunto de uma aula própria.

Theta: o que o tempo leva por dia

Theta é quanto a opção perde de valor a cada dia que passa, com todo o resto parado. Só a parte extrínseca do prêmio (o “valor de tempo”) derrete; o valor intrínseco não tem prazo de validade.

Para quem comprou, theta é um custo diário, como um aluguel. Para quem vendeu, é a receita que entra por dia — o motivo de a venda de prêmio existir. Mas theta não vem de graça: ele é o pagamento pelo gamma negativo. Quem recebe theta aceita o risco de um movimento brusco; quem paga theta compra proteção contra esse movimento.

Vega: o preço do seguro

Vega mostra quanto a opção muda quando a volatilidade implícita sobe ou cai 1 ponto percentual. É a parte do prêmio que reage ao “clima” do mercado, independentemente de o ativo ter se mexido.

Quem vende tem vega negativo: se a implícita cai, a posição ganha; se sobe, perde, mesmo com o ativo parado. É por isso que a Folha de Mesa só procura vender quando o prêmio está caro em relação ao próprio histórico (IV Rank acima de 30). A premissa é que um seguro vendido caro em relação ao próprio passado tem mais espaço para baratear do que para encarecer — uma premissa, não uma garantia: a implícita pode subir ainda mais depois da venda. Opções mais longas têm vega maior: um vencimento de 90 dias reage mais à implícita que um de 30.

Como as gregas conversam numa posição vendida

Um vendedor típico de put ou de strangle carrega theta positivo, gamma negativo e vega negativo. Em português claro: ganha com o tempo, perde com movimento brusco e perde se o mercado passar a cobrar mais caro pelo seguro. Não existe combinação que dê só a parte boa — theta positivo sempre vem acompanhado de gamma negativo.

As gregas também se somam. O delta da carteira é a soma dos deltas das posições (multiplicados pelo tamanho do contrato); o mesmo vale para theta e vega. Isso permite responder perguntas como “quanto a carteira toda ganha por dia se nada acontecer?” ou “quanto perde se o índice cair 2%?”.

Rho: o efeito dos juros

Rho mede quanto o prêmio muda com 1 ponto de juros. Juros mais altos tendem a encarecer calls e baratear puts, e o efeito cresce com o prazo. Com juros altos no Brasil, ele pesa mais nas séries longas da B3 do que costuma pesar nos EUA. No ciclo de ≈45 dias, continua secundário.

Gregas são uma foto, não um filme

Toda grega é calculada por um modelo de precificação a partir do preço, do strike, do tempo, dos juros e da volatilidade implícita daquele instante. Mudou um desses itens, mudaram as gregas. Por isso elas servem para movimentos pequenos e horizontes curtos; para movimentos grandes, a conta certa é reprecificar a opção.

Plataformas diferentes podem mostrar gregas um pouco diferentes para a mesma série, porque usam convenções diferentes de juros, de dividendos e de contagem de dias. Não é erro: é modelo. O que importa é ler sempre na mesma fonte e olhar a ordem de grandeza.

Exemplo ilustrativo
Valores hipotéticos

Ilustrativo: a put vendida de ABCD3 lida pelo painel

Hipótese: ABCD3 a R$ 50,00. Venda de 1 put strike R$ 46,00 por R$ 1,00, lote de 100 ações.
Gregas da put comprada (fictícias): delta −0,20 · gamma 0,04 · theta −0,03 por dia · vega 0,06 por ponto de IV.
Na posição vendida, os sinais se invertem: delta +0,20 · gamma −0,04 · theta +0,03 · vega −0,06.
Em reais (× 100): delta +20 (como ter 20 ações) · theta +R$ 3 por dia · vega −R$ 6 por ponto de IV.
Se ABCD3 sobe R$ 1,00 e nada mais muda: ganho aproximado de 0,20 × 100 = R$ 20.
Se a IV sobe 2 pontos e o preço fica parado: perda aproximada de 0,06 × 2 × 100 = R$ 12.
Se ABCD3 cai R$ 1,00: o delta da posição vai de +0,20 para cerca de +0,24 (0,20 + (−0,04) × (−1)). O próximo real de queda dói mais.

Conclusão: O painel mostra o contrato do vendedor por inteiro: R$ 3 por dia de receita de tempo, em troca de perder mais rápido a cada real que o ativo andar contra e de sofrer se o seguro encarecer. São aproximações para movimentos pequenos, não previsões.

Na B3 × Nos EUA
BrasilNa B3

Na B3, o lote padrão da opção acompanha o do ativo-objeto — na maioria das ações, 100. Nem toda plataforma mostra gregas de todas as séries; nas séries pouco negociadas, o número calculado sobre um preço velho pode enganar.

EUANos EUA

Nos EUA, o contrato padrão de opção de ação ou ETF é de 100 ações, e as corretoras costumam mostrar delta, gamma, theta e vega por série e somados por posição. Alguns sistemas exibem as gregas já multiplicadas por 100; confira a convenção da tela.

Erros comuns
  • Ler delta como certeza: delta 0,16 é uma aproximação de modelo, não uma chance garantida de 84% a favor.
  • Olhar só o theta e esquecer que ele é o pagamento por carregar gamma negativo.
  • Somar gregas de posições sem multiplicar pelo tamanho do contrato e pela quantidade.
  • Usar a grega de ontem para decidir hoje: ela muda a cada tique de preço, de tempo e de volatilidade.
Para levar
  • Delta: exposição ao preço; gamma: o quanto essa exposição acelera.
  • Theta: o que o tempo transfere de quem compra para quem vende.
  • Vega: sensibilidade ao preço do seguro (volatilidade implícita).
  • O vendedor típico tem theta positivo, gamma negativo e vega negativo — sempre juntos.
  • Gregas são fotos do modelo; para movimentos grandes, reprecifique.
Teste seu entendimento

4 perguntas · 0 respondidas

Pergunta 1
Pergunta 1 de 4

Uma put vendida com delta de posição +0,25 (lote de 100) se comporta, para movimentos pequenos, como:

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Termos desta aula
Estratégias que usam este conceito

Conteúdo educacional e matemático. Exemplos com valores hipotéticos; ações citadas são fictícias e índices reais aparecem com níveis ilustrativos. Não constitui recomendação de investimento, consultoria ou gestão de carteira (CVM/SEC). Veja o Aviso de Riscos.

Veja este conceito com dados reais no simulador — e, se travar, converse com o acompanhamento.

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