Correlação e diversificação
A regra de 1% a 3% por operação protege a conta de uma perda isolada. Ela não protege de várias perdas que acontecem juntas pelo mesmo motivo. Quando as posições são correlacionadas, a soma dos riscos pequenos vira um risco grande que não aparece em nenhuma linha da planilha. Esta aula mostra como enxergar essa concentração e em quais eixos espalhar o risco.
Correlação em uma frase
Correlação mede o quanto dois ativos costumam andar juntos. Vai de −1 (andam sempre em sentidos opostos) a +1 (andam sempre no mesmo sentido), passando por 0 (sem relação linear aparente).
Assim como o beta, correlação é calculada sobre o passado e muda com o tempo. Ela também não indica causa: dois papéis podem andar juntos porque dependem do mesmo fator, como juros, preço de uma commodity ou câmbio.
Contar posições engana
Cinco puts vendidas em cinco bancos parecem cinco operações. Para uma notícia que afeta o setor bancário inteiro, são uma operação só, com cinco vezes o tamanho.
O mesmo vale para eventos: várias posições que vencem logo depois da mesma decisão de juros, ou várias empresas que divulgam resultado na mesma semana, ficam expostas ao mesmo dia. A pergunta útil não é “quantas posições eu tenho?”, e sim “quantas notícias diferentes seriam necessárias para todas darem errado?”.
Os eixos da diversificação
A Folha de Mesa pede diversificação por setor, por ativo e por duração, e nunca concentrar a exposição no mesmo evento. Na prática, isso se desdobra em alguns eixos.
- Ativo e setor: espalhar entre empresas que dependem de fatores diferentes.
- Direção: combinar posições com deltas que se compensam em parte, sem transformar a carteira numa aposta.
- Vencimento e data de entrada: abrir posições em semanas diferentes, para que nem todas cheguem aos 21 DTE no mesmo momento de mercado.
- Estratégia: misturar risco definido e indefinido conforme o sizing permitir.
- Mercado: operar B3 e EUA reduz a dependência de um único país, mas acrescenta o câmbio como fator de risco.
Correlação muda quando mais importa
Em mercados calmos, ativos de setores diferentes costumam andar de forma relativamente independente. Em momentos de estresse, é comum que muitos ativos passem a cair juntos, e a correlação observada sobe justo quando a diversificação seria mais útil.
Isso não torna a diversificação inútil; torna-a insuficiente sozinha. É por isso que ela vem junto com sizing pequeno, teto de buying power e stop. Diversificação reduz a chance de tudo dar errado pelo mesmo motivo; os outros limites controlam o tamanho do estrago quando isso acontece mesmo assim.
Como checar na prática
Uma revisão de correlação não precisa de planilha sofisticada. Precisa de perguntas honestas, feitas antes de abrir cada posição nova.
- Liste as posições abertas por setor e por fator dominante (juros, commodity, câmbio, consumo, tecnologia).
- Some a perda máxima, ou o capital bloqueado, de cada grupo e compare com o patrimônio.
- Pergunte: que notícia faria duas ou mais posições perderem ao mesmo tempo?
- Confira o delta ponderado por beta da carteira antes e depois da nova posição.
- Veja quantas posições vencem na mesma semana e quantas atravessam o mesmo evento.
Cinco operações dentro da regra, uma carteira fora dela (valores ilustrativos)
Conclusão: O limite por operação foi cumprido nas duas carteiras. O que mudou foi o tamanho do pior dia comum: 10% contra 4% da conta. A correlação é o que transforma limites pequenos em um risco grande.
Na B3, a liquidez de opções se concentra em poucos papéis, e muitos deles dependem dos mesmos fatores, como juros domésticos, câmbio e commodities. Diversificar só dentro da bolsa brasileira costuma ser mais difícil do que parece; olhar o fator por trás de cada papel ajuda a enxergar a concentração.
Nos EUA há muito mais ativos com opções líquidas, incluindo ETFs setoriais, o que facilita espalhar o risco. Para quem opera do Brasil, a carteira americana acrescenta um fator próprio, o câmbio, que afeta o resultado em reais independentemente das posições.
- Contar posições em vez de contar fatores de risco diferentes.
- Concentrar vencimentos e entradas na mesma semana, deixando toda a carteira exposta ao mesmo evento.
- Supor que a correlação observada em mercado calmo vai se manter num dia de estresse.
- Tratar a carteira nos EUA como diversificação pura, esquecendo o efeito do câmbio no resultado em reais.
- Posições correlacionadas somam risco como se fossem uma posição só.
- Diversifique por ativo, setor, vencimento, data de entrada, estratégia e mercado.
- Correlação tende a subir no estresse; diversificação precisa vir junto com sizing e stop.
- Antes de cada posição nova, pergunte que notícia derrubaria várias posições ao mesmo tempo.
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Conteúdo educacional e matemático. Exemplos com valores hipotéticos; ações citadas são fictícias e índices reais aparecem com níveis ilustrativos. Não constitui recomendação de investimento, consultoria ou gestão de carteira (CVM/SEC). Veja o Aviso de Riscos.
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