Exercício e atribuição
A aula Vencimento e exercício mostra a regra do jogo. Esta mostra o lado de quem vendeu: como chegar à véspera do vencimento sem depender da sorte, o que fazer com ações que apareceram na conta, por que um spread pode virar outra coisa no último dia e quando a atribuição antes da hora fica provável.
Quem decide e quem cumpre
O titular tem o direito; o lançador, a obrigação. Quando um titular exerce, a câmara de compensação escolhe um lançador daquela série para cumprir. Nos EUA, a OCC distribui os avisos por sorteio entre os membros de compensação, que repassam aos clientes.
Em resumo: opção americana pode ser exercida em qualquer dia útil até o vencimento; europeia, só no vencimento. E, no vencimento, B3 e OCC exercem automaticamente o que estiver R$/US$ 0,01 ou mais dentro do dinheiro, salvo instrução do titular. Estilos por mercado e regras de cada bolsa estão na aula Vencimento e exercício.
A véspera do vencimento com perna vendida dentro do dinheiro
Pela Folha de Mesa, a posição já teria saído aos 21 DTE (Porta 2). Quando ela chega à reta final mesmo assim, a pergunta deixa de ser “quanto ainda posso ganhar” e passa a ser “o que a conta vai ter amanhã de manhã”. São três caminhos, e vale escolher um antes do último pregão.
- Encerrar: recomprar a opção vendida (e vender a comprada, se for um spread) numa ordem combinada. O resultado fica definido e não sobra nada para o exercício decidir.
- Rolar: trocar a opção que vence por outra de vencimento mais longo, pelas regras da aula Rolagem de posições — só por crédito.
- Aceitar o exercício de propósito: só faz sentido se o plano já era ficar com as ações (como na roda) e se o caixa ou a margem para isso já estão separados.
Ações recebidas: como zerar ou administrar
Put vendida exercida: você compra o lote pelo strike, e as ações aparecem na carteira, com liquidação no ciclo do mercado à vista informado pela corretora. A partir daí, o risco é o de quem tem 100 ações, sem teto para a perda até o zero. Os caminhos possíveis são vender as ações no pregão seguinte, encerrando o assunto, ou mantê-las e seguir um plano já escrito, como vender uma call coberta (a segunda metade da roda).
Call vendida exercida: se você tinha as ações (venda coberta), elas saem da carteira pelo strike. Se não tinha, você fica devendo a entrega, e a corretora vai exigir que essa posição seja resolvida — normalmente comprando as ações no mercado para entregar, conforme as regras dela. É a situação mais perigosa do exercício, porque a perda numa call descoberta não tem teto.
Em qualquer caso, o prêmio recebido não some: ele entra na conta do custo ou do resultado. A apuração de imposto de ações vindas de exercício tem regras próprias; confirme com seu contador.
Spread com uma perna só exercida: passo a passo
Um spread de crédito tem perda máxima conhecida enquanto as duas pernas existem. Se só a vendida for exercida, essa proteção desaparece. Veja com números ilustrativos, num put spread vendido de ABCD3 (lote de 100, sem custos):
- Montagem: venda da put strike R$ 40,00 e compra da put strike R$ 38,00. Crédito líquido: R$ 0,80 × 100 = R$ 80. Perda máxima enquanto as duas pernas existem: (2,00 − 0,80) × 100 = R$ 120.
- No vencimento, ABCD3 fecha a R$ 39,00, entre os strikes. A put de R$ 40,00 está R$ 1,00 dentro do dinheiro e é exercida: você compra 100 ações a R$ 40,00 = R$ 4.000. A put de R$ 38,00 está fora do dinheiro e vira pó.
- Marcado a mercado no fechamento: 100 × 39,00 − 4.000 + 80 = −R$ 20.
- Se no pregão seguinte ABCD3 abrir a R$ 34,00: 100 × 34,00 − 4.000 + 80 = −R$ 520. A perda passa da “perda máxima” de R$ 120, porque a put comprada, que limitava o risco, já não existe.
- Alternativa antes do fechamento do último dia: recomprar a put de R$ 40,00 pelo intrínseco, cerca de R$ 1,00 (R$ 100), e deixar a de R$ 38,00 virar pó. Resultado: 80 − 100 = −R$ 20, o mesmo número, mas sem ações na conta e sem precisar de R$ 4.000.
Quando a atribuição antecipada da put americana é provável
Na B3, as puts de ações são europeias, então isso é assunto de EUA. Lá, quem tem uma put americana bem dentro do dinheiro pode exercer antes do vencimento: vende as ações pelo strike e recebe o dinheiro agora, em vez de esperar. Isso só compensa quando o valor extrínseco que ainda resta na put é quase nada, porque ao exercer o titular abre mão dele.
O sinal para quem vendeu é comparar o preço da put com o intrínseco. Exemplo ilustrativo: put de XYZ strike US$ 50 com XYZ a US$ 42. Intrínseco: 50 − 42 = US$ 8,00. Se a put é negociada a US$ 8,02, o extrínseco é US$ 0,02 (US$ 2 por contrato), e a atribuição pode chegar em qualquer dia. Juros mais altos aumentam o incentivo, porque o dinheiro recebido antes rende. Uma data “ex” de dividendo próxima diminui, porque a ação tende a cair pelo valor do provento e o titular costuma esperar.
Nas calls americanas, o caso típico de exercício antecipado é a véspera da data “ex” de dividendo; os detalhes por mercado estão na aula Dividendos e opções.
Como o vendedor evita surpresas
A forma mais simples é a própria Folha de Mesa: com a Porta 2 aos 21 DTE, as posições raramente chegam ao vencimento. Fique atento a três sinais: perna vendida dentro do dinheiro com pouco extrínseco, data “ex” de dividendo próxima em call americana vendida e qualquer posição perto do strike no último dia.
Ser exercido não é, por si só, um desastre — na roda, é parte do plano. O problema é ser exercido sem ter previsto o caixa, a margem ou o que fazer com as ações no dia seguinte.
Ilustrativo: put vendida de ABCD3 exercida no vencimento
Conclusão: O prêmio não some no exercício: ele reduz o custo das ações recebidas. Mas a conta precisa ter R$ 4.000 disponíveis, e a partir daí o risco é o de quem tem 100 ações. Valores hipotéticos, sem custos; confirme a apuração com seu contador.
B3: como as puts de ações são europeias, a put vendida só pode ser exercida no vencimento — o cuidado se concentra na véspera. Calls americanas podem ser exercidas antes. Opções de Ibovespa são liquidadas em dinheiro, sem ações na conta.
EUA: opções de ações e ETFs são americanas, então tanto a put quanto a call vendida podem ser atribuídas antes do vencimento. Como o titular pode instruir depois do fechamento, “fechou fora do dinheiro” não garante que a opção não será exercida. SPX e XSP são liquidadas em dinheiro.
- Chegar ao último pregão com perna vendida dentro do dinheiro sem ter decidido entre encerrar, rolar ou aceitar o exercício.
- Vender put sem ter caixa ou margem para receber as ações se for exercido.
- Deixar spread vencer com o preço entre os strikes e acordar com ações e sem a perna de proteção.
- Ignorar uma put americana vendida bem dentro do dinheiro com extrínseco perto de zero.
- Achar que opção “fora do dinheiro no fechamento” nunca é exercida nos EUA, onde o titular pode instruir depois do pregão.
- Titular decide exercer; lançador é atribuído e cumpre.
- Na véspera, com perna vendida dentro do dinheiro: encerrar, rolar por crédito ou aceitar o exercício com caixa e plano.
- Spread com uma perna só exercida perde o limite de perda: a proteção virou pó.
- Put americana bem dentro do dinheiro e extrínseco quase zero: atribuição possível a qualquer dia.
- Fechar aos 21 DTE reduz muito a chance de ser exercido.
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Revisado em 04/10/2026
Fontes oficiais consultadas
Conteúdo educacional e matemático. Exemplos com valores hipotéticos; ações citadas são fictícias e índices reais aparecem com níveis ilustrativos. Não constitui recomendação de investimento, consultoria ou gestão de carteira (CVM/SEC). Veja o Aviso de Riscos.
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